'Monocultura sertaneja' no rádio contrasta com as paradas de streaming no Brasil
21/01/2018 18:01 em Música

O ouvido do brasileiro não está tão colado só nos sucessos sertanejos, como as paradas de rádio indicam. Os serviços de música por streaming mostram um Brasil com outros sons. Nas rádios, sete em dez faixas mais tocadas são sertanejas. Já no YouTube e no Spotify, o estilo divide atenção com hits de funk e pop.

O sertanejo domina 74% da parada das músicas mais tocadas das emissoras de rádio. No YouTube, quem domina os principais lugares da lista é o funk, mas em proporção menor (55%). No ranking Spotify, o sertanejo aparece com 40%, pop com 32% e funk 22%.

Os dados são relativos ao dia 13 de novembro e comparam a parada diária das 50 músicas mais tocadas no Spotify, as 50 músicas mais tocadas nas rádios (segundo monitoramento da empresa ConnectMix) e das 20 músicas mais tocadas no YouTube (a empresa não divulga um top 50, por isso o gráfico abaixo compara os percentuais de estilos nos três rankings).

 
Gráfico compara estilos em rankings de músicas mais tocadas nas rádios, no YouTube e no Spotify (Foto: Arte G1)Gráfico compara estilos em rankings de músicas mais tocadas nas rádios, no YouTube e no Spotify (Foto: Arte G1)

Gráfico compara estilos em rankings de músicas mais tocadas nas rádios, no YouTube e no Spotify (Foto: Arte G1)

O streaming – serviço que oferece músicas pela internet sob demanda - não é novidade. Ele já sustenta a indústria da música no Brasil e no mundo.

Paradas desencontradas

 

À medida que o streaming se espalha, não seria natural que ele revelasse hits com um gosto popular musical semelhante ao do rádio?

 

Entre os poucos dados de público que as empresas de streaming divulgam, dá para confirmar uma diferença importante: as rádios têm uma parcela menor de público jovem.

 

75% do público do YouTube tem menos de 34 anos. 70% dos usuários de Spotify estão nessa faixa. Já os ouvintes de rádio abaixo dessa idade são menos de 50%, segundo pesquisa do Ibope de fevereiro de 2017.

 

O único estilo que não tem variação grande é o pop, representado por faixas de Pabllo Vittar e Anitta (que veio do funk, mas hoje se entrega totalmente ao pop dançante). Eles tocam bem em todos os meios atualmente.

Sertanejo mais flexível

 

Outro fator que pode explicar a diferença são letras do funk. Os temas sexuais dominam o estilo hoje. Basicamente, quase todas as músicas atuais têm como objeto o "bumbum" e como ação os verbos "sentar", "quicar" e "descer". Batem forte na web, mas não descem para as rádios.

Fábio Schuck, representante nacional para a área musical da ConnectMix, aponta uma diferença básica entre rádio e streaming, que deixa as emissoras mais abertas aos temas mais suaves do sertanejo: "O rádio é aberto, fica ligado e pode ser ouvido por várias pessoas, a família inteira. Você não consegue filtrar."

"Além disso, há várias rádios com donos religiosos", ele diz. "Na verdade, até letras mais pesadas do sertanejo não entram", afirma.

No início do ano, o MC G15 fez uma versão light do hit “Deu onda”. Mas a letra não chegou a tirar toda a parte sexual e não foi tão longe assim nas emissoras. Foi líder absoluto na internet no verão, mas não alcançou o top 10 mensal nas rádios

 

Acordos comerciais

 

“Eu tentei conversar com as rádios”, diz Emerson Martins, 45 anos, empresário de funk de São Paulo que revelou artistas como os MCs Bin Laden, Brinquedo e Livinho, com milhões de visualizações no YouTube. Ele diz que as letras com teor sexual dificultam que o estilo vá além da internet.

 

Segundo o empresário, a suposta prática de pagar para tocar no rádio, conhecida como jabá, também dificultaria a vida do funk . “Numa linha mais ‘pop’ [sem palavrões] é um pouco mais fácil tocar, mas se tiver com muito dinheiro. Se não tiver, não vai tocar, não.”

O pagamento para ser tocado em alguma rádio não é um crime tipificado no brasil, nem por isso é declarado. E atualmente a prática parece não estar restrita a um meio ou a um estilo: a prática de pagar para tocar também chegou ao streaming.

“Não digo que não existem acordos comerciais, mas a principal razão do funk não estar nas rádios é que poucas rádios conseguiram migrar os seus ouvintes para este novo gênero”, diz o diretor nacional da ONerpm

“Não acredito que [a diferença] seja por verbas promocionais, mas muito mais por causa da dedicação de programação ao gênero. Não tem sentido numa rádio predominantemente sertaneja tocar um funk. Haverá uma alta rejeição ao público já acostumado. Será preciso uma adaptação de programação musical junto ao público para o funk poder entrar melhor no sertanejo”, completa.

 

Tendências

 

O representante da ConnectMix vê num caso atual um futuro para a música brasileira, seja qual for o estilo. A música "Cê acredita", parceria dos sertanejos João Neto & Frederico e do funkeiro Kevinho está em 22º no streaming e 23º radiofônico. Uma rara coincidência do Top 50 das rádios e do Spotify.

Ele vê no movimento de união uma forma de alguns sertanejos renovarem o público e, ao mesmo tempo, das estrelas do funk de SP terem entrada no rádio. "João Neto e Frederico aproveitaram a relevância atual do Kevinho para bombar um novo público que não era do sertanejo”, diz Fabio Schuck.

Este é um ponto do sertanejo que ainda casa com a mídia tradicional, segundo Fábio: a capacidade de se adaptar ao que o mercado pede tanto nas letras, com temas mais leves e variados, quanto no som, com parcerias diversas.

 

Fábio ressalta a força popular do funk, mas diz que ainda falta "gestão de carreira" aos MCs em ascensão hoje, em relação ao sertanejo.

Já Arthur Fitzgibbon, diretor da empresa que negocia a participação de artistas nos serviços de streaming, acredita em dois movimentos: mais diversidade no rádio e mais sertanejo no digital. “A nossa expectativa é que o sertanejo entre de cabeça no digital e tenha uma participação maior, mas a agilidade desse mercado vai tornar o jogo muito mais equilibrado do que foi nas rádios”, aposta o empresário.

 
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